O senhor do tempo



A
quele era de fato, o menor quarto que em que alguém poderia viver. Quatro paredes retas, brancas e altas, tão altas que se olhasse para cima por muito tempo, teria a impressão que elas se alongavam até se tornarem uma só. O quarto não possuía porta ou janela, não tinha cor alguma exceto o branco, mas dentre todas as coisas que poderia existir ali, existia um relógio.

tic∘ tac

O relógio ficava preso a altura dos olhos. Redondo e da mesma forma branco, só podia ser notado pelo movimento dos ponteiros e seu característico tic tac. Dentro daquele pequeno quarto, cada tic do ponteiro, ressoava com um enorme tac nas paredes. Um estalo que ecoava nos ouvidos até que fosse substituído por um grito de desespero. 

tic∘ tac

Ele nasceu ali. Não se sabe ao certo se foi colocado lá, ou mandaram subir as paredes a sua volta. O fato é que ele estava lá e ficaria a lá até morrer. Ele, era um senhor agora. Pele enrugada e expondo os relevos de seus ossos. O rosto cansado, triste, tão deformado que as rugas faziam dele um velho medonho. Pensava ele consigo mesmo, que quando mais novo acreditava viver no maior quarto do mundo. Com o passar dos anos, viu o quarto diminuir de tamanho se dando conta que aquilo que o confina, um dia irei diminuir até fechar por completo. 

tic∘ tac

Era por esse momento que ele esperava. Já não pensava mais sobre um outro fim, já não queria mais outro fim. Depois de tantos anos finalmente se deu conta que até mesmo aquelas paredes brancas poderiam ter tido mais cor se ele não se concentrasse no curto espaço, mas nas possibilidades que poderia criar dali. Ele esqueceu que no meio do quarto branco, ele era a cor que saltava aos olhos. Ele era a cor em um lugar sem cor. Ah se ele soubesse, que o som do relógio teria sido o metrônomo de tantas novas canções que ele poderia ter cantado, canções que agora, desejava ter tempo de compor...  


Agora não tinha mais cor, não havia mais som, não havia mais nada, exceto pelo eco daquele último suspiro dado quando as paredes fecharam sobre ele. 

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2 comments

  1. Olá :)
    Primeiro que eu queria deizer que amei sua ideia desse blog colaborativo. Muito legal dar espaço pra quem ama escrever, mas não sabe como expor isso.
    Esse texto foi você quem fez ou foi alguém que mandou ? De qualquer forma, ele é muito bom. Eu amo metáforas hahaha A forma com foi escirto, como tratou o tema da passagem do tempo e do desperdício dele com bobeiras. Eu fiquei encantada.

    Amei aqui, vou passar a seguir o blog.

    Beijos,
    Amanda
    http://migre.me/wdgZj

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    1. Oi Amanda!
      Agradeço por todos os elogios. O texto é meu mesmo e fico feliz que tenha gostado tanto! <3 Me incentiva a escrever mais vezes! Espero te ver mais vezes por aqui! Amei o comentário e o seu site também!

      Um grande beijo!

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